Quando se vive com um agressor nunca se sabe o que vai disparar o gatilho.
Um dia pode ser a janta que você não fez. No outro, a que você fez, “mas está com gosto de merda”. E todos os pratos irão para o chão.
Hoje, eu tenho um verdadeiro horror a portas que batem, pois como meu agressor não podia me dar uma pancada, ele batia a porta. Às vezes, a bateção de porta durava uma noite inteira, seguida por gritos e xingamentos.
Para evitar conflitos, eu passei a trabalhar muito.
Eu era babá na época e trabalhava das nove da manhã às seis da tarde, mas me voluntariava para ficar até mais tarde no trabalho. Também dormia na casa de amigos quando podia, ou até mesmo, muitas vezes, ia para algum hotel. Tudo para não ter que voltar para casa.
Eu achava que quanto mais tempo eu passasse, mais evitaria conflito, pois não incomodaria meu ex-companheiro. Mas não adiantou, pois não é assim que o ciclo do abuso funciona.
Você sabe reconhecer o ciclo do abuso?
O que eu descrevi é o que chamo de clima carregado. Nele, o agressor se mostra irritado, faz ameaças, profere injúrias e reclamações exageradas sobre nossa rotina e atitudes. A companheira, então, busca acalmar o agressor, a fim de evitar a evolução para a segunda fase. Exatamente como eu fazia.
Mas não adiantou.
Não evitou que a tempestade chegasse.
A tempestade é a fase do ciclo de abuso em que ocorre a agressão, o episódio violento, que pode físico, sexual, psicológico, patrimonial ou moral.
Depois de descarregar sua raiva e frustração, e mostrar todo seu poder sobre a vítima, o agressor se mostra arrependido. Tenta agradá-la e tenta convencê-la de que a tempestade não irá se repetir. A calmaria, como chamo essa fase, dá uma falsa sensação de que tudo acabou e que a tempestade não voltará.
Acreditar nas promessas feitas nessa falsa calmaria só vai deixar a mulher ainda mais presa e à mercê do relacionamento abusivo. Apesar das aparências, a vida doméstica não será a mesma após um episódio violento.
O medo será uma nuvem carregada, sempre presente, nos fazendo agir com cautela, pisando em ovos, temendo uma nova descarga de raios. Uma nova tempestade.
A calmaria sempre passa e o ciclo recomeça. E quando os ciclos do abuso começam a se repetir com mais frequência, não é incomum que as situações sejam escaladas. O abuso psicológico pode virar abuso físico. O físico se torna abuso sexual e assim por diante.
Por isso, é tão importante saber da existência desse ciclo. Reconhecer esse ciclo de abuso é o que vai ajudar a quebrá-lo e a se libertar dele.
Ter essa informação, entender que esses comportamentos não são normais e que, pelo contrário, são sinais de um relacionamento abusivo, faz toda a diferença na sua vida, e pode evitar que você fique presa numa situação que se arraste por anos em sua vida.
Conhecer as características de cada fase e entender o que acontece em cada uma delas é vital. Só quando reconhecemos e damos o nome correto ao que está acontecendo em nossas vidas, é que se consegue sair dessa situação.
Por ter vivido essa situação e sentido na pele suas consequências é que eu digo e repito: não tenha medo, tenha informação.
Busque auxílio, você não está sozinha.
Até o próximo post!



