Quando eu era casada com meu abusador, ele vivia perdendo as chaves de casa. Você sabe por quê?
Porque, dessa forma, eu era obrigada a chegar antes dele do trabalho e não sair de casa nos dias de folga. Resumindo: ficar sem as chaves era uma forma bem sutil dele me prender dentro de casa.
Outra situação bastante frequente era ele ficar sem celular.
Virava e mexia, eu acabava passando o meu celular para ele. Lembro que, já no período bem próximo da data que sai de casa, eu estava sem celular. Como estava sem trabalhar, eu usava o telefone fixo de casa.
Sabe o que meu ex fazia?
Ele desconectava o telefone da parede, sem que eu percebesse, para me deixar incomunicável. As pessoas me ligavam por horas, mas o telefone nunca tocava já que estava desconectado da tomada.
Eu só me dei conta de que isso acontecia dias antes de sair de casa. E, mesmo assim, não responsabilizei imediatamente ele como o autor disso. Só fui reconhecer e nomear o que era quando fui para o abrigo. Numa aula sobre Violência Doméstica, me foi explicado que isso acontecia.
Por isso, conversar com outras mulheres e com quem atua com vítimas de violência é tão importante. A gente aprende a reconhecer estratégias que os abusadores usam e agente nem se dá conta.
Quer ver o que também é uma forma de violência, de abuso, e nem parece?
O parceiro fingir que não lhe entende ou se recusar a ouvir o que você tem a dizer e puxar a clássica frase: “Eu não quero ouvir isso de novo”.
Fingir ter esquecido o que realmente ocorreu e negar coisas, dizer que não sabe do que você está falando, também é. Assim como mudar de assunto, dizer que você está imaginando coisas, banalizar e relativizar os seus sentimentos, dizer que você é sensível, questionar a sua memória, plantar dúvida quanto a sua sanidade, dizer que você nunca acredita nele e também nunca lembra direito das coisas – mesmo que você recorde dos acontecimentos com precisão.
Esses são alguns entre muitos outros exemplos de comportamentos abusivos, violentos. E nem parece, né? Se a gente não sabe, não reconhece. E fica mais à mercê deles, porque o cérebro também é impactado.
A neurociência explica que a dinâmica do cérebro de quem sofre abuso é modificada e que os neurônios da mulher que está num relacionamento abusivo vão sofrer algum impacto negativo. Eles podem morrer ou mudar a forma como se comunicam uns com os outros.
A boa notícia é que, como o cérebro é um órgão dinâmico e de muita neuroplasticidade (capacidade de criar novas conexões entre neurônios), ele pode se refazer desses danos e recuperar sua capacidade de funcionamento.
Para que isso aconteça, no entanto, é preciso romper todo e qualquer de contato com o abusador. Além, claro, de grupo de apoio e acompanhamento com psicoterapeuta, como recomenda a plataforma Não era amor.
Como eu sempre digo e repito por aqui: não tenha medo, tenha informação. Ela pode lhe ajudar a se libertar.
Busque auxílio, você não está sozinha.
Se precisar de ajuda, estou aqui.
Até o próximo post!

