No post anterior, eu falei sobre a importância da informação de qualidade, para que as melhores decisões sejam tomadas de forma ponderada e sem medo!
Sabe, eu não era advogada no Brasil. Eu sequer sonhava em ser advogada um dia!
Nascida na periferia de São Paulo, fui a primeira pessoa e mulher da família a entrar em uma universidade pública, em 2004. Uma conquista heroica, gigante, conseguida após muitas noites sem dormir, graças ao suporte da minha mãe e da minha avó paterna. E uma vitória para toda minha família.
Vim para a Europa aprender um idioma trabalhando como au-pair na França. Também trabalhei como nanny, maternity nurse e fiz muita faxina para poder pagar as contas em Londres.
Sofri preconceito, senti saudade, tive vontade de voltar para casa… Sofri violência doméstica e vivi em um abrigo para mulheres. Passei por tudo isso. E, sinceramente, espero que você não conheça isso.
Há seis anos, sou advogada de imigração no Reino Unido e trabalho para que as mulheres tenham acesso a informações de qualidade sobre os seus direitos. Faço isso porque uma coisa que me prejudicou muito no processo de me libertar da relação abusiva que vivi e virar a chave foi a dificuldade de encontrar informações de qualidade em português.
Quando fui vítima de violência doméstica, eu era uma mulher sozinha. Não tinha filhos e muitas pessoas me diziam que eu não receberia ajuda de forma alguma – mas eu recebi toda a ajuda e não precisei ter filhos para isso.
Também ouvi muitos conselhos que ajudaram a me manter em um relacionamento abusivo. Coisas como…
- Não tenha amigas mulheres, pois mulheres são competitivas e invejosas.
- Não faça amizade com brasileiras, você precisa e misturar para aprender a nova língua!
- Casamento é assim mesmo!
Todos esses conselhos, além de equivocados, são extremamente perigosos, já que acabam nos mantendo fragilizadas num relacionamento tóxico e cada vez mais presas e conectadas a um abusador.
Hoje eu sei que mulheres se fortalecem em suas amizades, trocando experiências e confidências. É assim que formamos nossas redes de apoio!
Sei que ninguém aprende um novo idioma sem estudar, só vendo gente e se misturando. Isso é uma falácia.
Sei que casamentos têm dificuldades, sim. Todos têm problemas. Isso é fato. Mas se o tempo está sempre pesado na sua casa, se você está sempre pisando em ovos para evitar brigas ou para não irritar o outro, isso não é normal! É abuso. E abuso nunca é aceitável. E jamais é culpa da vítima.
Hoje, tenho pensado muito no que eu teria feito diferente, se tivesse toda a informação que estou compartilhando aqui com você. E não tenho dúvidas: eu teria dado queixa do meu ex-marido desde a primeira agressão!
Na sequência, eu teria saído de casa e alugado um quarto para mim. Teria continuado trabalhando, procurado um advogado de imigração e teria me separado.
Mas eu também sei que relacionamentos abusivos impactam o cérebro das vítimas e que, quando estamos vivendo um relacionamento abusivo, coisas que poderiam ser simples na vida de qualquer pessoa, como pensar, julgar e tomar decisões, passam a ser muito difíceis e até mesmo impossíveis para mulheres.
É por isso que eu venho compartilhando e disponibilizando informações sobre relacionamentos abusivos e direitos da mulher há amis de um ano. Porque eu já passei por isso e sei o quanto a informação de qualidade nos encoraja e abre uma perspectiva de libertação.
Eu acredito que a informação nos faz superar o medo. E estou aqui para ajudar quem precisar. Você não está sozinha.
Até o próximo post!
https://www.instagram.com/p/C3hr4QutOLn




