O ano era 2013. Eu trabalhava como nanny e maternity nurse, profissional que ajuda nos primeiros cuidados do bebê e da mãe, assim que saem da maternidade. E também fazia faxinas para poder pagar as contas.
Apesar de já estar morando na Inglaterra há dois anos, eu falava inglês muito mal. Minha compreensão também era péssima.
Em função disso, decidi fazer um curso de inglês aos sábados, em uma escola próximo de casa. Eu sentia a necessidade de melhorar meu inglês para mudar de trabalho e, quem sabe, poder fazer o mestrado para ser professora de francês na Inglaterra.
Meu agressor decidiu que também iria para o curso no mesmo dia, no mesmo horário e na mesma escola. Acabamos em turmas diferentes. Isso somado ao fato de eu ter feito amizade com todos na minha sala, e com eles socializar e conviver nos intervalos, foi motivo para que ele começasse a me agredir verbalmente. A infernizar meus finais de semana. As agressões escalaram de tal forma que eu decidi sair do curso para evitar conflitos.
Essa foi uma escolha que acabou me custando tempo. Não ter o domínio da língua inglesa contribuiu para que eu não abandonasse meu ex-marido abusador e o deixasse na primeira oportunidade.
Na primeira vez em que ele me agrediu fisicamente, liguei para uma colega, que me orientou a não denunciar. Segundo ela, eu perderia meu direito de continuar vivendo no país, pois meu visto estava atrelado ao dele, já que éramos casados.
Nessa época, eu não sabia que, quando se está sofrendo violência doméstica, independentemente da nossa situação enquanto imigrantes, podemos e devemos procurar a polícia. Ninguém vai prender ou expulsar você do país por ter sido vítima de violência doméstica.
A lei britânica diz que o casal precisa provar que a relação subsiste há três anos e que por um ano, ao menos, o casamento subsistiu em um país da União Europeia. Porém, se você é vítima de violência doméstica, não precisa provar o tempo dessa união. Você pode (e deve) se separar a qualquer momento.
Por isso, é de extrema importância registrar e guardar as provas da violência sofrida – coisas como printar e guardar num arquivo em local seguro mensagens no whats app e nas redes sociais, áudios, vídeos, contar para alguém de sua confiança ou seu médico de família do seu GP (general practitioner) sobre o que está acontecendo na sua casa.
Não, ninguém do GP vai chamar a polícia, nem se comunicar com o agressor, já que tudo que você relata para o médico do seu GP é confidencial.
Esse é o tipo de informação que pode salvar a vida de muitas mulheres. Independentemente de onde vieram, vítimas de violência doméstica com quem converso não querem voltar para seus países de origem. E o abusador utiliza isso para mantê-las cativas, subjugadas.
Por isso, pra evitar esse tipo de manipulação, é fundamental aprender a falar inglês ou ter acesso a informações corretas e de qualidade na nossa língua materna. Como vivi essa situação e senti na pele suas consequências, eu sei bem como isso faz a diferença num momento em que estamos fragilizadas e repletas de dúvidas.
Como sempre digo e repito, não tenha medo, tenha informação de qualidade. E busque auxílio. Você não está sozinha.
Até o próximo post!
