Quando cheguei em Londres com meu então noivo, naquele final de 2011, na bagagem eu trazia a certeza de que estávamos felizes juntos. O casamento se aproximava, estávamos mudando nossas vidas, com perspectivas e, ele, com um trabalho excelente como chef em um conceituado restaurante francês em Londres.
Acreditei que havíamos deixado para trás, na França, de onde vínhamos, as brigas e tensões. Ele vinha se abstendo do álcool há quatro meses e agia como um bom companheiro. Entretanto, mais uma vez, a felicidade era apenas uma ilusão.
Já no dia do nosso casamento, ele voltou a beber. O tempo foi passando e as agressões não só voltaram a acontecer, como foram escalando até chegar na física, quando ele me empurrou e eu caí em cima da cama. Aparentemente, nem foi nada tão grave assim. Mas isso só lhe deu mais convicção para continuar me agredindo de outras formas e cada vez com mais frequência.
Nenhuma situação de violência doméstica surge de repente. E os sinais dela estão sempre ali, à nossa frente. Porém, nem sempre nos damos conta deles. Nem sempre reconhecemos esses sinais, pois não estamos acostumadas a entendê-los e chamá-los por aquilo que eles são: abusos.
O abuso nem sempre vem com bandeiras escancaradas.
Muitas vezes ele é sutil. E nem parece abuso. Mas é.
Agressões verbais. Xingamentos. Elevar a voz. Quebrar pratos, copos, cadeiras. Socar paredes. Bater portas. Fazer escândalo em festas. Ter ciúmes exagerado. Insistir para fazer sexo e pressioná-la ou ficar de cara amarrada e mal-humorado no dia seguinte. Tirar a camisinha e não lhe avisar. Não ajudar com as despesas da casa. Nunca comprar nada. Pedir dinheiro e nunca mais pagá-la. E se você cobrar, chamá-la de egoísta e insensível. Não contar quanto ganha, mas exigir acesso aos seus ganhos. Deixá-la sem acesso a recursos financeiros. Fazer comentários e brincadeiras que fazem você ficar insegura sobre você mesma. Ter acesso às suas senhas, controlar com quem você conversa nas redes sociais, tirar fotos suas em momentos íntimos, ficar bravo quando você curte alguma foto ou comentário de amigos e familiares. Não gostar ou implicar com suas amigas e amigos, e fazer você se afastar de todos, até mesmo de seus familiares.
Nenhum desses comportamentos é normal.
Todos eles são sinais de relacionamento abusivo.
Se eu soubesse e entendesse isso na época em que estava com o meu ex- abusador, teria me afastado dele muito antes. E não teria acreditado naquela história da carochinha de que eu iria mudá-lo, transformá-lo. Isso não acontece.
Ter essa informação, saber que esses comportamentos não são normais e que, pelo contrário, são sinais de um relacionamento abusivo, faz toda a diferença na sua vida, e pode evitar que você fique presa numa situação que se arraste por anos.
Quando você reconhece e dá o nome correto ao que está acontecendo, você entende o que está se passando na sua vida e aí pode buscar formas de sair dessa situação.
Por ter vivido essa situação e sentido na pele suas consequências é que eu que eu digo e repito: não tenha medo, tenha informação.
Busque auxílio, você não está sozinha.
Até o próximo post!






