Em outubro de 2012, eu e meu ex-companheiro e abusador fomos ao casamento de uma amiga minha em Paris.
Eu estava muito feliz em poder compartilhar esse momento com ela, além de poder passear pela cidade que eu amo tanto. Mas, após o casamento, a tempestade desabou. Meu ex-companheiro fez um terrível escândalo no hotel em que estávamos hospedados.
Me bateu, me humilhou de diversas formas.
Durante as agressões, eu gritava por socorro e o concierge veio conferir o que acontecia só depois de muito tempo. Assim que ele entrou no quarto, meu companheiro tentou me apesentar como uma mulher histérica e descontrolada, dizendo que nada estava acontecendo, ainda que ele estivesse ameaçando me estrangular com o fio de telefone.
Mas o concierge só pedia que ele parasse o escândalo, enquanto eu implorava por ajuda ali.
Não sei explicar como aconteceu, só lembro de ter finalmente corrido para fora do quarto seminua, rumo à recepção, enquanto meu agressor me perseguia e me agredia verbalmente pelos corredores do hotel. Diante de todos.
Em todo esse trajeto e na recepção, eu implorava para ligarem para a polícia. Mas as pessoas passavam por mim apenas com olhar de nojo e indiferença. Ninguém, absolutamente ninguém, se dispôs a chamar a polícia. Só depois de muita confusão, o concierge aceitou me passar o telefone para que eu mesma pedisse ajuda – para que eu não conseguisse pedir socorro, meu ex-marido confiscara me celular também.
E foi ali que algo começou a mudar. Uma força gigantesca apoderou-se de mim. Me encorajei e chamei a polícia, porque eu não já aguentava mais aquilo. E porque, dessa vez, eu já tinha domínio da língua inglesa e da francesa.
Finalmente a ajuda chegou e meu ex-marido, de maneira agressiva e descontrolada, continuou me acusando, dizendo tratar-se de um simples desentendimento de casal. A polícia o levou para a delegacia e eu fui para o hospital. Lá, fui atendida por um enfermeiro muito atencioso, a quem expliquei o que tinha acontecido. Depois de me escutar, ele disse:
- Largue ele enquanto é só você. Todos os dias, atendemos mulheres no seu estado. Elas chegam aqui com filhos e, depois que há filhos, tudo fica muito mais complicado.
Suas palavras ficaram gravadas em mim.
Mas, outra vez, acabei relevando, já que, depois de passar 24 horas na cadeia, meu ex-marido retornou todo amoroso. Conseguiu um novo trabalho, passou a pagar suas contas sempre na data exata e ficou sem ingerir álcool.
A essa altura, eu já sabia que logo ele esqueceria tudo, voltaria para a bebedeira e perderia o trabalho. O que de fato aconteceu. Mas como ele sabia que eu não tinha mais medo de chamar a polícia, ele parou de me agredir fisicamente e passou a se concentrar nas agressões verbais e ao nosso patrimônio, quebrando pratos, copos, cadeiras, socando paredes, fazendo escândalo em várias festas e exibindo ciúmes exagerado.
Eu vivia em estado de alerta, sempre esperando o pior. O medo é uma nuvem carregada, sempre presente, nos fazendo agir com cautela, pisando em ovos, temendo uma nova descarga de raios. Uma nova tempestade.
Assim é o ciclo do abuso.
A calmaria sempre passa e tudo recomeça, até chegar na próxima tempestade, que vai se tornando mais e mais violenta. E pode acabar sendo fatal para a vítima.
Por ter vivido essa situação e sentido na pele suas consequências é que eu digo e repito: não tenha medo, tenha informação.
Busque auxílio. E se precisar de ajuda, conte comigo!
Até o próximo post!
